com certeza esse foi o livro que mais me custou a terminar... eu não sou o tipo de pessoa que persiste na leitura de algo que eu não gosto só pra ter aquele número nas "estatísticas" (ainda mais que pra mim a leitura não deveria ser nada competitiva), mas aqui eu queria completar por dois motivos: é um clássico que inspirou um filme do del toro e a estruturação dos capítulos é inspirada nas cartas do tarô (e eu
amo tarô).
cada capítulo tem o nome de uma carta de tarô, dando uma ideia de linearidade e da realização da jornada do "herói" (que aqui nós temos um ser humano desprezível). a jornada começa com a carta do louco e tem o seu fim na carta do enforcado. embora os capítulos não estejam na ordem tradicional do tarô, a ideia central é que o leitor veja o lado selvagem da humanidade, acompanhe o "crescimento" de Stan (nosso odioso protagonista) até o seu auge, e logo em seguida, temos sua derrocada espetacular e brutal, jogando ele no papel que ele tanto desprezava: o selvagem.
O jovem Stan Carlisle, carroceiro de um circo de variedades, assiste, em um misto de repulsa e curiosidade, a uma das principais atrações do lugar: um alcoólatra, decadente e entregue à própria imundice, é apresentado como um selvagem, sendo objeto de espanto, nojo e escárnio da multidão voyeurística. Stan se pergunta como um homem pode se humilhar e perder a dignidade daquela forma. Ele jura que nunca, de forma alguma, essa desgraça poderia acontecer com ele.
Stan é inteligente e ambicioso – e não sem um traço útil de crueldade –, e em breve sobe na hierarquia do circo. No palco, vira assistente no espetáculo de leitura de mentes e adivinhação, e em pouco tempo se "gradua" como um espiritualista.
Aproveitando-se de suas novas habilidades, sai do circo e passa a atender ricos e crédulos em suas belas casas. O mundo parece estar à disposição de Stan. Mas seu caminho cruzará com o de uma perigosa psiquiatra, e nem tudo sairá como planejado: as ambições do jovem Stan cobrarão seu preço.
depois que eu terminei o livro, resolvi pesquisar sobre a vida do autor, e aí tive a certeza de que sim: Stan Carlisle é uma grande parte do próprio William Gresham, e isso não é uma boa coisa. fica visível que esse desprezo pela humanidade não é apenas coisa do personagem, é como se o autor levasse essa mágoa pro pessoal mesmo, com uma dose especial de rancor com o sexo feminino. Stan é cruel, odioso, não tem um farelo de humanidade e se importa unicamente consigo. seu único objetivo é se tornar "o maior" de todos e ganhar dinheiro fácil de ricos sem fazer muito esforço. Stan enxerga os outros como insetos, pois ele possui mais apreço por animais do que humanos. o alcoolismo também possui um peso bem grande tanto para Stan, quanto para Gresham. e o único fator que me faz dar uma aliviada pra esse homem, é o fato de que o livro foi escrito logo após a segunda guerra - ou seja, tava todo mundo fodido da cabeça.
A natureza humana é a mesma em qualquer lugar. Todos têm os mesmos problemas. É possível controlar qualquer um descobrindo-se o que ele teme.
as personagens femininas também são péssimas, quando mencionadas sempre estão acompanhadas com a ideia de que são desleais, egoístas, covardes e que se importam apenas com sexo. primeiro conhecemos Zeena, a cartomante, que traia o marido alcóolatra. depois temos Molly, retratada como uma pessoa fraca e influenciável. e por fim, temos Lilith, a psicóloga frívola que brinca com o intelecto e segredos de seus pacientes. li algumas resenhas em que as pessoas dizem que o livro é "um verdadeiro ensaio sobre a natureza do mal" mas eu não concordo. o mal apenas está lá, ele apenas é. não há motivos, não há causas. Stan não foi vítima das circunstâncias. e a forma em que Gresham aborda a psicologia é bastante contra produtiva.
o ritmo de leitura é bem arrastado na primeira metade. a ambientação é boa, mas de certa forma desnecessária. muitas vezes eu acabava dormindo no meio da leitura. do meio pro final começa a pegar uma certa velocidade, mas lá nos últimos 5% do livro, as coisas ficam absurdamente corridas - como se o autor quisesse terminar logo a história. não vou negar, eu gostei do final, achei muito interessante acompanhar a quebra de sanidade do Stan, como se fosse uma folha de cristal bem fina, que se rompe com um leve toque de forma repentina.
Era o beco escuro mais uma vez. Com uma luz em seu fim. Desde criança, Stan tinha aquele sonho. Estava correndo por um beco escuro, com prédios vazios e ameaçadores de ambos os lados. Lá no fim, uma luz ardia; mas havia algo atrás dele, bem atrás, chegando mais perto, até que ele acordava tremendo e nunca alcançava a luz. Eles também têm... um beco do pesadelo. O norte não tem fim. A luz apenas vai para mais longe. E o medo vai chegando mais perto.
é um livro que eu recomendaria pra pessoas que se interessam pela degradação da mente e condição humana, como um estudo de caso mesmo. aqui não há esperança ou uma ideia de um amanhã pleno, apenas um beco escuro, que por mais que você tente fugir, a escuridão sempre vai estar atrás de você, pronto pra te engolir.