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26.6.24

a noite das bruxas...

mais uma obra da rainha do crime gata triste Agatha Christie - a personificação do clichê de senhorinha inglesa que ama uma fofoquinha acompanhada de uma xícara de chá.

aqui começamos a história acompanhando mrs. Ariadne Oliver, uma escritora famosa de livros de crimes e mistérios (qualquer semelhança com a realidade é uma mera coincidência), ajudando na organização (ou ao menos tentando) de uma festa de dia das bruxas para as crianças dessa pequena província no interior da Inglaterra, em companhia de outras senhoras e algumas crianças que também resolveram ficar pra ajudar na organização.

Joyce, uma garotinha de mais ou menos 9 anos, resolve dizer que já presenciou um assassinato (provavelmente para impressionar Ariadne), embora ninguém tenha mostrado acreditar na menina devido a sua índole duvidável e costume de mentir regularmente. depois da festa encontram o corpo dela sem vida, afogada na bacia de metal que horas antes havia sido usada para “pesca de maçãs” - e é ao redor desse mistério que iremos orbitar.

em completo estado de choque e confusão, mrs. Oliver pede ajuda a seu amigo, o detetive Hercule Poirot, para resolver o crime e fazer justiça a pequena mentirosinha e sua família. já que muitas senhoras (e inicialmente muitos oficiais da polícia) acreditam que o assassino tenha sido algum “doente mental” que ocasionalmente fugiu e por ironia do destino entrou na casa durante a festa de dia das bruxas.

… O excesso de misericórdia sempre resultava em crimes ainda mais graves sofridos por vítimas inocentes que teriam saído ilesas se a justiça viesse antes da misericórdia.

aqui a nossa gata triste resolve fazer um emaranhado absurdo de histórias até desembocar no crime em questão… quase uma daquelas filas de dominó que você só precisa derrubar a primeira peça pra e observar uma caindo após a outra até atingir o final. o que acaba complicando um pouco pro leitor prever o final muito antes do final.

bem, de certa forma, o criminoso tem sim alguns parafusos a menos, mas não no sentido de que se dá a entender inicialmente e o indivíduo possuí bastante discernimento e sabia muito bem o que estava fazendo e arrisco dizer que se fosse deixado em liberdade ele teria sim continuado a matar tranquilamente sem nenhum impedimento ou peso na consciência. 

28.3.24

o lago negro...

ultimamente eu notei que eu quase não lia muitos livros nacionais, muito menos os autores atuais, embora eu siga alguns no twitter. acabei esbarrando nesse livro e após ler a sinopse acabei sendo fisgada apesar de se tratar de uma trilogia (e eu não ando lá com tanta coragem pra me comprometer com leituras muito extensas - mas no fim das contas eu me rendi). o fato de ser uma história mais centrada no suspense que no romance me deu um incentivo maior. 

a história se passa em Lagoana, uma cidade fictícia no interior de São Paulo. achei interessante a escolha de usar a habitual reserva da comunidade interiorana pra criar uma atmosfera de tensão que acaba sendo confundida inicialmente com desprezo por parte dos habitantes em relação com as pessoas de fora. afinal, a cidade que há pouco era bem pequena, acabou se tornando uma cidade universitária. e é aí que a protagonista entra: Verônica se mudou pra essa cidade pois o mentor de seu pai leciona no campus da universidade de Lagoana.

Verônica Cattani está escrevendo seu primeiro livro. Seguindo os passos de seu pai, o falecido Andréas Cattani, seu principal objetivo é dar vida a histórias reais em forma de fantasia. Mas, antes, ela precisa cair nas graças de Carlos Velásquez, o antigo mentor de Andréas e atual professor na Universidade de Lagoana, onde agora ela estuda. Na tentativa de escrever seu enredo maluco e chamar atenção de Velásquez a jovem não percebe estar acordando demônios antigos, espíritos malignos que viviam no fundo das águas de um lago escuro. Agora, realidade e fantasia se misturam. É impossível discernir quem são pessoas reais e quem são seus personagens. Quem irá tirar Verônica das teias de sua própria loucura?

admito que inicialmente a leitura começou bem lenta, mas por um motivo particular meu, eu tive muita resistência com a Verônica, eu realmente não conseguia simpatizar com ela e o relacionamento dela com Enzo me deixava muito incomodada, entendo que ela é uma personagem com problemas psiquiátricos e que passou anos internada, mas parecia que ela nunca teve um acompanhamento profissional decente e que o namorado dela realmente acreditava que o poder do "amor" seria o suficiente pra ajudar com qualquer problema mental dela - e não estamos falando de uma depressão leve ou uma simples crise de ansiedade. 

o caso é que Verônica passou por um trauma muito pesado na infância e acabou internalizando todo o acontecido e soterrando tudo em seu subconsciente como uma tentativa de seguir adiante com a vida. porém, sempre que surge uma oportunidade, fragmentos de memória acabam se mostrando mas ela acaba interpretando tudo como algo lúdico e acaba registrando tudo como um livro de fantasia com elementos sobrenaturais - já que ela sempre sonhou em seguir os passos do pai como uma escritora. o problema é quando ela começa a ver essas "ideias fictícias" no mundo real e começa a duvidar de sua própria sanidade. 

Entre nós, agora, estava minha companheira. Era ela... A loucura. Ela é como um desalinho em espiral nos trilhos da sua mente. Quando o trem chega perto das zonas de risco, aqueles espaços se contorcem e retorcem, esgueirando-se dentro de seu cérebro, embrenhando-se no meio de sua carne, como veias enferrujadas intrincadas com as saudáveis. O trem fica desgovernado, acelera em meio a elas, passa por dentro de tudo, rasgando e sangrando. 

fiquei com medo dos meus bloqueios iniciais com a protagonista me atrapalharem no aproveitamento da leitura no geral, mas não aconteceu, o ritmo da história começa a acelerar e quando acabou fiquei surpresa em perceber que eu não me importaria em ir pra um próximo volume, já que muitas pontas ficam abertas e Verônica enfim resolve tentar ver as coisas como são e não fugir ou fantasiar sobre suas memórias. 



6.6.23

uma porção de centeio...

temos hoje mais um post sobre a minha escritora favorita, a rainha do crime: Agatha Christie (ou gata triste para os mais íntimos). o livro da vez foi "uma porção de centeio", como já está no título, e mais uma vez eu não saí arrependida da leitura. aliás, o famigerado cozy mystery é sempre uma boa escolha de leitura pra quando sua cabecinha não está tankando o bostil. e os livros da gata triste em especial, parecem grandes novelões que passam no horário nobre. 

nossa história começa com a morte de Rex Fortescue, um milionário de caráter duvidoso, a única discrepância nesse ocorrido é uma porção de centeio no bolso da vítima. a polícia se vê numa corrida contra o tempo quando mais duas vítimas aparecem, e com a ajuda de miss Marple, e sua visão nada ortodoxa, o detetive Neele começa a juntar as peças soltas do mistério. 

fiquei encantada com a ideia de que a polícia inglesa deixou uma senhorinha xeretar uma cena de crime sem nenhum impedimento, senhorinha essa que também possui referências com oficiais da Scotland Yard. a polícia cedendo para a força da fofoca. e nossa, quanta fofoca a miss Marple consegue desenterrar dos ricaços entediados e com medo de serem os próximos da lista de baixas. 

além das fofocas, outra característica marcante nas obras da Christie é: treta de família rica. é quase um casos de família edição de luxo. e a grande maioria das tretas é sempre por dinheiro, isso mesmo: ricos brigando por dinheiro. é uma grande obra de arte para nós, classe trabalhadora que mal consegue conceber a ideia de uma herança, quem dirá brigar por uma. 

apesar da aparição da nossa querida miss Marple se dar mais do meio pro final do livro, a história em si e o cenário foram muito bem construídos, fazendo assim com que a chegada da Marple seja o início do desenrolar do problema, sua presença é mais uma linha guia ao detetive Neele do que uma fonte de respostas fáceis, gostei de que ela tenta fazer ele chegar na solução antes de dizer tudo de forma fácil. outra característica dela que me agrada muito é o fato de que, embora sua aparência seja a de uma frágil senhora, miss Marple é uma mulher racional e calma, boa em ouvir e analisar o cenário como um todo.

o livro é leve e tem um bom ritmo, maravilhoso pra se ler na cama numa manhã mais fria com um copo de leite quente. foi uma leitura maravilhosa pra salvar minha cabeça depois do trauma que foi o beco das ilusões perdidas. 

10.5.23

o beco das ilusões perdidas...

com certeza esse foi o livro que mais me custou a terminar... eu não sou o tipo de pessoa que persiste na leitura de algo que eu não gosto só pra ter aquele número nas "estatísticas" (ainda mais que pra mim a leitura não deveria ser nada competitiva), mas aqui eu queria completar por dois motivos: é um clássico que inspirou um filme do del toro e a estruturação dos capítulos é inspirada nas cartas do tarô (e eu amo tarô).


cada capítulo tem o nome de uma carta de tarô, dando uma ideia de linearidade e da realização da jornada do "herói" (que aqui nós temos um ser humano desprezível). a jornada começa com a carta do louco e tem o seu fim na carta do enforcado. embora os capítulos não estejam na ordem tradicional do tarô, a ideia central é que o leitor veja o lado selvagem da humanidade, acompanhe o "crescimento" de Stan (nosso odioso protagonista) até o seu auge, e logo em seguida, temos sua derrocada espetacular e brutal, jogando ele no papel que ele tanto desprezava: o selvagem. 


O jovem Stan Carlisle, carroceiro de um circo de variedades, assiste, em um misto de repulsa e curiosidade, a uma das principais atrações do lugar: um alcoólatra, decadente e entregue à própria imundice, é apresentado como um selvagem, sendo objeto de espanto, nojo e escárnio da multidão voyeurística. Stan se pergunta como um homem pode se humilhar e perder a dignidade daquela forma. Ele jura que nunca, de forma alguma, essa desgraça poderia acontecer com ele.

Stan é inteligente e ambicioso – e não sem um traço útil de crueldade –, e em breve sobe na hierarquia do circo. No palco, vira assistente no espetáculo de leitura de mentes e adivinhação, e em pouco tempo se "gradua" como um espiritualista.

Aproveitando-se de suas novas habilidades, sai do circo e passa a atender ricos e crédulos em suas belas casas. O mundo parece estar à disposição de Stan. Mas seu caminho cruzará com o de uma perigosa psiquiatra, e nem tudo sairá como planejado: as ambições do jovem Stan cobrarão seu preço.


depois que eu terminei o livro, resolvi pesquisar sobre a vida do autor, e aí tive a certeza de que sim: Stan Carlisle é uma grande parte do próprio William Gresham, e isso não é uma boa coisa. fica visível que esse desprezo pela humanidade não é apenas coisa do personagem, é como se o autor levasse essa mágoa pro pessoal mesmo, com uma dose especial de rancor com o sexo feminino. Stan é cruel, odioso, não tem um farelo de humanidade e se importa unicamente consigo. seu único objetivo é se tornar "o maior" de todos e ganhar dinheiro fácil de ricos sem fazer muito esforço. Stan enxerga os outros como insetos, pois ele possui mais apreço por animais do que humanos. o alcoolismo também possui um peso bem grande tanto para Stan, quanto para Gresham. e o único fator que me faz dar uma aliviada pra esse homem, é o fato de que o livro foi escrito logo após a segunda guerra - ou seja, tava todo mundo fodido da cabeça.


A natureza humana é a mesma em qualquer lugar. Todos têm os mesmos problemas. É possível controlar qualquer um descobrindo-se o que ele teme.


as personagens femininas também são péssimas, quando mencionadas sempre estão acompanhadas com a ideia de que são desleais, egoístas, covardes e que se importam apenas com sexo. primeiro conhecemos Zeena, a cartomante, que traia o marido alcóolatra. depois temos Molly, retratada como uma pessoa fraca e influenciável. e por fim, temos Lilith, a psicóloga frívola que brinca com o intelecto e segredos de seus pacientes. li algumas resenhas em que as pessoas dizem que o livro é "um verdadeiro ensaio sobre a natureza do mal" mas eu não concordo. o mal apenas está lá, ele apenas é. não há motivos, não há causas. Stan não foi vítima das circunstâncias. e a forma em que Gresham aborda a psicologia é bastante contra produtiva. 


o ritmo de leitura é bem arrastado na primeira metade. a ambientação é boa, mas de certa forma desnecessária. muitas vezes eu acabava dormindo no meio da leitura. do meio pro final começa a pegar uma certa velocidade, mas lá nos últimos 5% do livro, as coisas ficam absurdamente corridas - como se o autor quisesse terminar logo a história. não vou negar, eu gostei do final, achei muito interessante acompanhar a quebra de sanidade do Stan, como se fosse uma folha de cristal bem fina, que se rompe com um leve toque de forma repentina. 


Era o beco escuro mais uma vez. Com uma luz em seu fim. Desde criança, Stan tinha aquele sonho. Estava correndo por um beco escuro, com prédios vazios e ameaçadores de ambos os lados. Lá no fim, uma luz ardia; mas havia algo atrás dele, bem atrás, chegando mais perto, até que ele acordava tremendo e nunca alcançava a luz. Eles também têm... um beco do pesadelo. O norte não tem fim. A luz apenas vai para mais longe. E o medo vai chegando mais perto.


é um livro que eu recomendaria pra pessoas que se interessam pela degradação da mente e condição humana, como um estudo de caso mesmo. aqui não há esperança ou uma ideia de um amanhã pleno, apenas um beco escuro, que por mais que você tente fugir, a escuridão sempre vai estar atrás de você, pronto pra te engolir. 

6.4.23

12 livros para 2023...

estou tentando voltar de vez com alguns hábitos off-line que me faziam bem antigamente e que eu acabei negligenciando nos últimos anos, leitura é uma delas. desde que me formei em direito eu comecei a fugir de livros e dar prioridade a quadrinhos e mangás, provavelmente pelo fato de que com a presença das imagens e dos textos mais espaçados eu sinta que não estou algo muito sério, mas sim aproveitando um momento de lazer. vou tentar ler um livro por mês, pelo menos, e pensei em estruturar essa lista com alguns dos 817261 títulos na minha estante de "pretendo ler" do goodreads


1. antes que o café esfrie; toshikazu kawaguchi: esse eu já li e adorei, mesmo me fazendo chorar horrores eu achei os contos belíssimos e de uma delicadeza absurda! ainda não vi o live action mas já baixei no notebook (perdão pela pirataria senhor, mas não achei em streaming).
2. garotas em chamas; c. j. tudor: também já li e gostei bastante, eu dei prioridade porque for recomendação de uma das podcasters(?) de terror que eu escuto regularmente. 
3. o beco das ilusões perdidas; william lindsay gresham: essa é minha leitura atual, ainda estou no início e bem confusa (kkcry). também foi uma indicação de uma blogueira de terror que eu curto bastante e ocasionalmente pego dicas, a jesca.
4. uma porção de centeio; agatha christie: sempre gosto de ler algo leve entre as leituras, e pra mim a gata triste é um ótimo entretenimento, tem aquele gostinho de novela de mistério pastelão mas sem ser mal feito. 


5. serpente de essex; sarah perry: esse aqui eu realmente não sei onde encontrei a recomendação, mas li a sinopse e me senti interessada. livros de época e com protagonistas femininas sempre me atraem, o mesmo acontece nos mangás (alô isekai). 
6. o homem de giz; c. j. tudor: já estava há anos na minha lista de "livros para ler" e eu sempre acabava escolhendo outro, mas depois que eu li "garotas em chamas" eu resolvi, enfim, dar atenção para "o homem de giz" que os booktubers aclamaram anos atrás...
7. kafka à beira-mar; haruki murakami: eu sempre vejo muitos elogios aos livro do murakami, acho que as capas me assustavam um pouco porque me passam uma vibe mais "livro que vai desestruturar seu psicológico", mas uma moça no twitter disse que seria uma boa começar por esse livro dele. 
8. punição para a inocência; agatha christie: mais um livro da gata triste pra amortecer possíveis ressacas literárias e desgraçamentos emocionais - e, aos poucos, terminar meu projeto de leitura da rainha do crime.


9. a última festa; lucy foley: outro nome que eu sempre vejo pelos vídeos dos booktubers que tem o gosto literário parecido com o meu. e mais um título que eu estou rezando pra não odiar e perder a energia pra seguir indicações. 
10. querida konbini; sayaka murata: depois de "antes que o café esfrie" eu criei um certo interesse em ler mais livros orientais, afinal eu já consumo tanto da cultura no geral mas não me lembrava de nenhum livro de autores orientais que eu já havia lido antes. esse livro foi indicação da gabi, que tem um bom repertório nesse campo (e ela também gostou do livro do toshikazu)
11. kim jiyoung, nascida em 1982; cho nam-joo: outro livro que escolhi por ser de autor oriental e com o combo de ter protagonista feminina - com a desigualdade de gênero sendo a temática principal (aparentemente). vou passar raiva? sim. isso vai me impedir de ler? não, pois sou extremamente trouxa. 
12. um corpo na biblioteca; agatha christie: perceba que esse eu escolhi estrategicamente para amortecer a indignação que "kim jiyoun" possa me causar. 

26.3.23

garotas em chamas...

apesar de ter começado o livro mês passado e ter enrolado bastante pra pegar no embalo (por motivos completamente não relacionados), eu acabei de ler agorinha esse livro maravilhoso. me arrependo um pouco de não ter dado mais prioridade pra essa leitura e ter me prendido na leitura do curso de ux - que apesar de ter sido útil, cada vez eu me sentia mais repelida por ler outras coisas. meu deus como esses livros de design tem uma pegada pesada de auto ajuda.


enfim, "garotas em chamas" não me prometeu nada e me entregou tudo! ultimamente, eu tenho um certo medo de livros relativamente "novos" (vide, livros escritos nos últimos 20 ou que o autor ainda esteja vivo - estranho, eu sei), porque parece que eu consigo sentir quando o autor está escrevendo aquilo só pra ~quebrar a internet e criar uma série de qualidade duvidosa em streamings ou se realmente está escrevendo porque gosta e acredita na sua própria história. foi o que eu senti com Hex, meu deus quanta decepção.


Há muito tempo uma história sinistra é contada na pequena Chapel Croft. Cinco séculos atrás, mártires protestantes foram traídos, e então queimados. Trinta anos atrás, duas adolescentes desapareceram sem deixar vestígios. E há algumas semanas, o responsável pela paróquia local se enforcou na nave da igreja.


A reverenda Jack Brooks, mãe solteira de uma jovem de quatorze anos, chega a esse vilarejo em busca de um recomeço. Em vez disso, encontra um lugar tomado por conspirações e segredos, e é recebida com um estranho pacote de boas-vindas: um kit de exorcismo e um bilhete: Não há nada escondido que não venha a ser descoberto.


Quanto mais Jack e sua filha, Flo, exploram a cidadezinha e conhecem seus estranhos moradores, mais as duas se aprofundam em feridas antigas, mistérios e suspeitas. E, quando Flo começa a ver meninas ardendo em chamas, fica evidente que há fantasmas por ali que se recusam a descansar em paz.


Neste thriller macabro e cheio de reviravoltas, no qual nem todo mundo é quem parece ser, C. J. Tudor mostra mais uma vez por que é uma das vozes mais originais da literatura contemporânea.


As personagens são muito bem escritas, eu realmente me apeguei à Jack e Flo, me deixando com uma leve melancolia quando o livro acabou e eu percebi que não ia ler mais sobre elas. Jack é uma vigária, uma mulher vigária, o que já rende boas observações pois sempre que ela faz sua primeira aparição em uma cena, os personagens reagem de uma forma exagerada e machista por nenhum motivo aparente além dos próprios valores antiquados. apesar da sua ocupação, Jack se mostra bem cética e racional, ela não está lá por uma fé cega, mas sim para ajudar quem está em uma situação desesperadora como uma forma de compensar pelo seu passado. Flo, é a típica adolescente desajustada. aparentemente madura pra sua idade, veja bem, eu disse aparentemente. afinal de contas ela ainda é uma adolescente de 15 anos que se acha esperta demais - mas mesmo assim isso não a deixa irritante.


a leitura começa um pouco lenta, mas depois o ritmo fica mais dinâmico. os capítulos eram divididos e contados como ponto de vista dos personagens. alguns temas tratados podem ser gatilhos para algumas pessoas, como abuso, violência infantil e fanatismo religioso - as descrições não chegam a ser tão vívidas nesse ponto mas mesmo assim podem afetar alguém. eu vi muitas pessoas reclamando da quantidade de subplots na história e bem, não posso negar que tem um momento que eu mesma me senti um pouco confusa com a quantidade de informações, mas no final eu achei muito bom o conjunto da obra. e também entendo a escolha a autora em colocar o fator sobrenatural mais como uma leve cortina escondendo a história "real". 


como eu disse, eu escolhi esse livro por recomendação de uma amiga minha que gosta da mesma temática que eu, mas mesmo assim eu fui sem nenhuma expectativa. e fui surpreendida positivamente! tanto que já estou colocando os outros livros da autora na lista de leituras desse ano (risos). 


As pessoas são feitas para sentir culpa por "viver uma mentira", mas quem nunca escondeu partes de si daqueles que ama? Porque não queremos magoá-los. Porque não queremos ver decepção nos olhos deles. Falamos que o amor é incondicional, mas poucos querem colocar isso à prova. 

22.1.23

antes que o café esfrie...

uma das minhas metas do ano é ler mais, e em janeiro eu já tentei começar com o primeiro livro do ano. escolhi “antes que o café esfrie” por ser de um autor oriental e ter um plot que me despertou curiosidade. afinal de contas eu sempre tenho um fraco pela cultura oriental - em especial a japonesa.


o livro é separado em quatro contos, inicialmente eu planejei ler um conto por dia, mas devido a carga emocional que eu não estava preparada pra lidar eu levei mais ou menos dois dias pra ler cada conto. a história é ótima e eu realmente devoraria se não fosse os litros de lágrimas que eu acabei derramando ao longo da leitura.


imagem: Kohi ga Samenai Uchi Ni


Como dito na sinopse, o livro conta a história de um café que fica numa rua estreita e pouco movimentada de Tóquio que possui uma característica incomum: fazer as pessoas viajarem no tempo. porém as coisas não são tão simplistas assim, tudo sem suas regras e aqui também não seria diferente. temos 5 regras: você só pode encontrar no passado uma pessoa que já esteve no café, nada que você faça no passado vai alterar o presente, apenas uma cadeira em específico tem essa capacidade, a pessoa não deve se levantar dessa cadeira enquanto estiver no passado e, por fim, há um tempo limite de permanência no passado - você deve voltar antes que o café esfrie.


uma coisa que eu achei interessante foi o fato de que o motivo das pessoas retornarem no tempo, apesar de ser o fator motivador, não é o mais importante. mas sim as ações que a pessoa toma quando volta da viagem. é como se o fato de reviverem o passado e poder ponderar como as coisas seriam diante de ações diferentes os fizessem dar mais valor e aproveitar o presente ao máximo para que não haja arrependimentos futuros.


O presente não tinha mudado - mas essas duas pessoas tinham. Tanto Hirai quanto Kohtake voltaram para o presente de coração mudado, prontas para seguir em frente.


eu li algumas resenhas em que as pessoas reclamaram do fluxo das histórias pois sentiram que não eram lineares e que o estilo de escrita não era muito convencional e deduziram que provavelmente isso seria pelo fato de que o livro foi originalmente escrito como uma peça. mas eu não notei essas inconsistências. eu gostei do ritmo de leitura e achei ele bem conciso e bem escrito, não é cheio de detalhes excessivos e desnecessários e os personagens são bem caracterizados - e é por isso que eu chorava tanto em cada conto. pra mim, os sentimentos deles era algo bem palpável.


o livro tem uma continuação (e uma adaptação cinematográfica que eu pretendo procurar na locadora caribeña pra assistir) e eu estou muito curiosa pra saber se vão revelar mais sobre o porque e como a viagem no tempo começou a acontecer e dizer mais sobre como ficou a vida das pessoas que continuam a cuidar do café. eu amei a ideia de que no fim, você percebe que os personagens acabam se ligando ao café de uma forma emocional e não necessariamente de forma ruim, muito pelo contrário, eles parecem formar uma grande família.

20.11.22

contos de horror da Mimi, de Junji Ito

eu sempre gostei da temática de horror/terror, e sejamos sinceros, os asiáticos são mestres nesse assunto. depois de ouvir muito sobre, resolvi pedir "contos de horror da mimi" que havia acabado de entrar na pré-venda da amazon. eu já havia entrado em contato com as obras do Junji Ito por meios alternativos (alô biblioteca virtual vermelha) e gosto do estilo do trabalho dele. 

o livro é um conjunto de 8 histórias de horror que ocorrem na vida de mimi, que na minha opinião tem muito azar em relação ao sobrenatural. a coitada não pode ter um minuto de paz, e embora em algumas situações as coisas acontecem porque ela foi curiosa demais, na maioria das vezes é acidental mesmo. a nona história não envolve a mimi, mas achei muito boa também, entrou no meu top 3 entre todas.

"A jovem Mimi parece não conseguir se desvencilhar dos estranhos eventos sobrenaturais que a cercam, testando até mesmo as crenças de seu cético namorado. Visitantes mortais, lápides misteriosas e visões improváveis espreitam as páginas desta assustadora coleção de histórias reais editadas pelo lendário Junji Ito. Mergulhe neste passeio aterrorizante, se tiver coragem. Livro perfeito para os fãs de Fragmentos do Horror."


as minhas histórias favoritas foram "a praia", "circulo carmesim" e "o boneco de assombração". duas outras histórias são tão curtinhas que mais pareciam tirinhas. mas no geral, os contos sempre deixam um gostinho de "quero mais" (especialmente o da praia). na maioria das histórias, o desfecho fica em aberto, deixando o medo do desconhecido tomar foco, afinal de contas, o ser humano tende a temer aquilo que ele não consegue explicar. 

a arte do livro é linda e a edição da darkside é impecável - como sempre. a capa tem uns efeitos brancos que parecem brilhar em contraste com o preto fosco da maioria da capa, e o laranja deu um contraste muito bonito - fiquei até com dó de abrir o livro demais pra não quebrar a lombada. gostei tanto das histórias que até resolvi colecionar as outras obras, as próximas que estou de olho são os volumes de "Tomie" - que virou até série na netflix. 

24.5.22

sempre vivemos no castelo...

Imagem Xis

terminei de ler mais um livro da rainha Shirley Jackson, e mais uma vez eu saio de uma leitura completamente surpreendida positivamente - e sem palavras também. depois de ler "assombração na casa da colina" eu resolvi adotar essa escritora como minha favorita e o único lamento que eu tenho é que não tenha tantas obras dela quanto eu queria.


em "sempre vivemos no castelo" conhecemos a família Blackwood - ou ao menos o que sobrou dela: Merricat (Mary Katherine), sua irmã mais velha Constance e tio Julian. os Blackwood são uma família tradicional e antiga da região, desprezada de certa forma pelos vizinhos que os julgam como esnobes. mas o que importa aqui é como vamos conhecer a dinâmica dos três Blackwood restantes.


a narrativa se dá pelo ponto de vista de Merricat e sua peculiar visão de mundo, sua rotina sistematizada e rígida e seus pequenos "rituais" de proteção contra o mundo exterior. sua personalidade é meio conturbada com toques de ansiedade e fobia social e sua mente absurdamente imaginativa sempre torna a leitura um pouco confusa no início. Constance possui uma personalidade mais submissa e doce, sempre ocupada em sua cozinha e sua horta, fazendo seus assados e conservas. já tio Julian passa seus dias escrevendo sobre a noite do último jantar em família em que todos os Blackwood ainda estavam vivos. 


Constance sofre de agorafobia e não é capaz de passar da horta da própria casa, o que para Merricat pode ser algo vantajoso, já que dessa forma ela consegue manter a irmã em segurança dentro das sólidas paredes da mansão Blackwood. porém as coisas começam a sair do eixo sistemático e rotineiro quando um primo distante resolve aparecer para uma visita, e quem sabe, ajudar as primas que ao seu ver estão desamparadas. e é com a chegada de Charles que Merricat resolve mostrar seu lado possessivo e infantil para proteger Constance que, por sua vez, não consegue ver a dubiedade das ações do primo. 


há uma adaptação cinematográfica de 2018 com a direção da Stacie Passon, com a Taissa Farmiga como Merricat e a Alexandra Daddario no papel de Constance mas eu ainda não assisti, só me falta descobrir como já que aparentemente não teve uma grande distribuição. enfim, eu super recomendo a leitura, apesar de não ser uma leitura muito confortável... me senti sufocada e as vezes desesperada em algumas passagens, mas é um dos estilos de leitura que eu gosto e foi muito bem escrito. mais uma vez a rainha do suspense mostra a que veio.