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o lago negro...

ultimamente eu notei que eu quase não lia muitos livros nacionais, muito menos os autores atuais, embora eu siga alguns no twitter. acabei esbarrando nesse livro e após ler a sinopse acabei sendo fisgada apesar de se tratar de uma trilogia (e eu não ando lá com tanta coragem pra me comprometer com leituras muito extensas - mas no fim das contas eu me rendi). o fato de ser uma história mais centrada no suspense que no romance me deu um incentivo maior. 

a história se passa em Lagoana, uma cidade fictícia no interior de São Paulo. achei interessante a escolha de usar a habitual reserva da comunidade interiorana pra criar uma atmosfera de tensão que acaba sendo confundida inicialmente com desprezo por parte dos habitantes em relação com as pessoas de fora. afinal, a cidade que há pouco era bem pequena, acabou se tornando uma cidade universitária. e é aí que a protagonista entra: Verônica se mudou pra essa cidade pois o mentor de seu pai leciona no campus da universidade de Lagoana.

Verônica Cattani está escrevendo seu primeiro livro. Seguindo os passos de seu pai, o falecido Andréas Cattani, seu principal objetivo é dar vida a histórias reais em forma de fantasia. Mas, antes, ela precisa cair nas graças de Carlos Velásquez, o antigo mentor de Andréas e atual professor na Universidade de Lagoana, onde agora ela estuda. Na tentativa de escrever seu enredo maluco e chamar atenção de Velásquez a jovem não percebe estar acordando demônios antigos, espíritos malignos que viviam no fundo das águas de um lago escuro. Agora, realidade e fantasia se misturam. É impossível discernir quem são pessoas reais e quem são seus personagens. Quem irá tirar Verônica das teias de sua própria loucura?

admito que inicialmente a leitura começou bem lenta, mas por um motivo particular meu, eu tive muita resistência com a Verônica, eu realmente não conseguia simpatizar com ela e o relacionamento dela com Enzo me deixava muito incomodada, entendo que ela é uma personagem com problemas psiquiátricos e que passou anos internada, mas parecia que ela nunca teve um acompanhamento profissional decente e que o namorado dela realmente acreditava que o poder do "amor" seria o suficiente pra ajudar com qualquer problema mental dela - e não estamos falando de uma depressão leve ou uma simples crise de ansiedade. 

o caso é que Verônica passou por um trauma muito pesado na infância e acabou internalizando todo o acontecido e soterrando tudo em seu subconsciente como uma tentativa de seguir adiante com a vida. porém, sempre que surge uma oportunidade, fragmentos de memória acabam se mostrando mas ela acaba interpretando tudo como algo lúdico e acaba registrando tudo como um livro de fantasia com elementos sobrenaturais - já que ela sempre sonhou em seguir os passos do pai como uma escritora. o problema é quando ela começa a ver essas "ideias fictícias" no mundo real e começa a duvidar de sua própria sanidade. 

Entre nós, agora, estava minha companheira. Era ela... A loucura. Ela é como um desalinho em espiral nos trilhos da sua mente. Quando o trem chega perto das zonas de risco, aqueles espaços se contorcem e retorcem, esgueirando-se dentro de seu cérebro, embrenhando-se no meio de sua carne, como veias enferrujadas intrincadas com as saudáveis. O trem fica desgovernado, acelera em meio a elas, passa por dentro de tudo, rasgando e sangrando. 

fiquei com medo dos meus bloqueios iniciais com a protagonista me atrapalharem no aproveitamento da leitura no geral, mas não aconteceu, o ritmo da história começa a acelerar e quando acabou fiquei surpresa em perceber que eu não me importaria em ir pra um próximo volume, já que muitas pontas ficam abertas e Verônica enfim resolve tentar ver as coisas como são e não fugir ou fantasiar sobre suas memórias. 



ainda estou aqui...

passei meses tentando escrever algo pra voltar pra esse espaço, perdi a conta de quantas vezes eu rabisquei e apaguei logo em seguida pois achei que estava tudo muito ruim... aliás, esse é um sentimento que me acompanha desde que eu me entendo por gente - e sim, eu faço terapia. mas enfim, o oompa loompa rebelde e caótico da minha cabeça acabou se apoderando do controle e resolveu postar logo mesmo que eu não estivesse feliz com o resultado final. 

esses meses que eu andei sumida daqui eu andei me afundando em meios de entretenimento, qualquer coisa que me fizesse esquecer a vida real. No final de 2023 eu fiquei completamente obcecada com jogos, voltei a jogar Ori, passei algumas semanas presas no House Flipper 2, e por fim fiquei um tempo considerável presa em Ghostwire Tokyo. Mas de janeiro de 2024 pra cá meu hiperfoco mudou... acho que meu corpo está saturado de telas e acabei me sentindo mais receptiva aos livros. 

eu não pegava um livro de forma consistente desde quando eu terminei a faculdade, eu não sentia mais nenhum prazer lendo e o que era proveitoso pra mim, estava mascarado com um sentimento de ansiedade e insuficiência - eu sentia que eu não lia o bastante, que os livros que me interessavam não eram bons o bastante, que a velocidade que eu lia não era fluída o bastante, e sem querer, de forma subconsciente, eu estava me comparando aos booktubers e booktoks malucos com métricas ridículas. E daí se eu não conseguisse ler 300 livros por ano? mais uma vez deixei o oompa loompa caótico assumir.

pra manter o interesse em leitura (e ter ao menos o mínimo de interação social que minha psicóloga quer que eu tenha) eu entrei no clube de leitura da Ana no catarse, as leituras que ela propõe são mais próximas ao meu gosto, então eu achei que poderia ser divertido. eu até criei coragem de começar a tentar ler um livro de mais de mil páginas. e claro que pretendo escrever sobre o que eu já li por esse ano, mas provavelmente vai ser de uma forma bem básica com minhas impressões de leitora casual e provavelmente com spoiler... quero escrever pra me divertir de novo, e não com medo de algum julgamento alheio que provavelmente nem vai me alcançar de forma concreta.

como última novidade, eu resolvi ouvir o senhorzinho do centro espírita de palmelo e resolvi ir pro curso sobre o "evangelho segundo o espiritismo", a psicóloga achou q seria bom que eu fizesse alguma atividade fora de casa e eu pensei que seria bom (e minha mãe iria parar de me deixar maluca) se eu cuidasse um pouco mais do meu lado espiritual.

enfim, acho que isso foi quase tudo que andou rolando nesses meses que eu dissociei e fingi que esse blog não existia. inicialmente eu pensei que não teria nada para escrever e acabaria jogando esse post no lixo, mas até que rendeu. e eu realmente espero que esse meu ânimo para cuidar de mim mesma com mais carinho e fazer as coisas que realmente me deixam feliz continue e eu volte aqui com mais frequência. 

uma porção de centeio...

temos hoje mais um post sobre a minha escritora favorita, a rainha do crime: Agatha Christie (ou gata triste para os mais íntimos). o livro da vez foi "uma porção de centeio", como já está no título, e mais uma vez eu não saí arrependida da leitura. aliás, o famigerado cozy mystery é sempre uma boa escolha de leitura pra quando sua cabecinha não está tankando o bostil. e os livros da gata triste em especial, parecem grandes novelões que passam no horário nobre. 

nossa história começa com a morte de Rex Fortescue, um milionário de caráter duvidoso, a única discrepância nesse ocorrido é uma porção de centeio no bolso da vítima. a polícia se vê numa corrida contra o tempo quando mais duas vítimas aparecem, e com a ajuda de miss Marple, e sua visão nada ortodoxa, o detetive Neele começa a juntar as peças soltas do mistério. 

fiquei encantada com a ideia de que a polícia inglesa deixou uma senhorinha xeretar uma cena de crime sem nenhum impedimento, senhorinha essa que também possui referências com oficiais da Scotland Yard. a polícia cedendo para a força da fofoca. e nossa, quanta fofoca a miss Marple consegue desenterrar dos ricaços entediados e com medo de serem os próximos da lista de baixas. 

além das fofocas, outra característica marcante nas obras da Christie é: treta de família rica. é quase um casos de família edição de luxo. e a grande maioria das tretas é sempre por dinheiro, isso mesmo: ricos brigando por dinheiro. é uma grande obra de arte para nós, classe trabalhadora que mal consegue conceber a ideia de uma herança, quem dirá brigar por uma. 

apesar da aparição da nossa querida miss Marple se dar mais do meio pro final do livro, a história em si e o cenário foram muito bem construídos, fazendo assim com que a chegada da Marple seja o início do desenrolar do problema, sua presença é mais uma linha guia ao detetive Neele do que uma fonte de respostas fáceis, gostei de que ela tenta fazer ele chegar na solução antes de dizer tudo de forma fácil. outra característica dela que me agrada muito é o fato de que, embora sua aparência seja a de uma frágil senhora, miss Marple é uma mulher racional e calma, boa em ouvir e analisar o cenário como um todo.

o livro é leve e tem um bom ritmo, maravilhoso pra se ler na cama numa manhã mais fria com um copo de leite quente. foi uma leitura maravilhosa pra salvar minha cabeça depois do trauma que foi o beco das ilusões perdidas.