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uma porção de centeio...

temos hoje mais um post sobre a minha escritora favorita, a rainha do crime: Agatha Christie (ou gata triste para os mais íntimos). o livro da vez foi "uma porção de centeio", como já está no título, e mais uma vez eu não saí arrependida da leitura. aliás, o famigerado cozy mystery é sempre uma boa escolha de leitura pra quando sua cabecinha não está tankando o bostil. e os livros da gata triste em especial, parecem grandes novelões que passam no horário nobre. 

nossa história começa com a morte de Rex Fortescue, um milionário de caráter duvidoso, a única discrepância nesse ocorrido é uma porção de centeio no bolso da vítima. a polícia se vê numa corrida contra o tempo quando mais duas vítimas aparecem, e com a ajuda de miss Marple, e sua visão nada ortodoxa, o detetive Neele começa a juntar as peças soltas do mistério. 

fiquei encantada com a ideia de que a polícia inglesa deixou uma senhorinha xeretar uma cena de crime sem nenhum impedimento, senhorinha essa que também possui referências com oficiais da Scotland Yard. a polícia cedendo para a força da fofoca. e nossa, quanta fofoca a miss Marple consegue desenterrar dos ricaços entediados e com medo de serem os próximos da lista de baixas. 

além das fofocas, outra característica marcante nas obras da Christie é: treta de família rica. é quase um casos de família edição de luxo. e a grande maioria das tretas é sempre por dinheiro, isso mesmo: ricos brigando por dinheiro. é uma grande obra de arte para nós, classe trabalhadora que mal consegue conceber a ideia de uma herança, quem dirá brigar por uma. 

apesar da aparição da nossa querida miss Marple se dar mais do meio pro final do livro, a história em si e o cenário foram muito bem construídos, fazendo assim com que a chegada da Marple seja o início do desenrolar do problema, sua presença é mais uma linha guia ao detetive Neele do que uma fonte de respostas fáceis, gostei de que ela tenta fazer ele chegar na solução antes de dizer tudo de forma fácil. outra característica dela que me agrada muito é o fato de que, embora sua aparência seja a de uma frágil senhora, miss Marple é uma mulher racional e calma, boa em ouvir e analisar o cenário como um todo.

o livro é leve e tem um bom ritmo, maravilhoso pra se ler na cama numa manhã mais fria com um copo de leite quente. foi uma leitura maravilhosa pra salvar minha cabeça depois do trauma que foi o beco das ilusões perdidas. 

o beco das ilusões perdidas...

com certeza esse foi o livro que mais me custou a terminar... eu não sou o tipo de pessoa que persiste na leitura de algo que eu não gosto só pra ter aquele número nas "estatísticas" (ainda mais que pra mim a leitura não deveria ser nada competitiva), mas aqui eu queria completar por dois motivos: é um clássico que inspirou um filme do del toro e a estruturação dos capítulos é inspirada nas cartas do tarô (e eu amo tarô).


cada capítulo tem o nome de uma carta de tarô, dando uma ideia de linearidade e da realização da jornada do "herói" (que aqui nós temos um ser humano desprezível). a jornada começa com a carta do louco e tem o seu fim na carta do enforcado. embora os capítulos não estejam na ordem tradicional do tarô, a ideia central é que o leitor veja o lado selvagem da humanidade, acompanhe o "crescimento" de Stan (nosso odioso protagonista) até o seu auge, e logo em seguida, temos sua derrocada espetacular e brutal, jogando ele no papel que ele tanto desprezava: o selvagem. 


O jovem Stan Carlisle, carroceiro de um circo de variedades, assiste, em um misto de repulsa e curiosidade, a uma das principais atrações do lugar: um alcoólatra, decadente e entregue à própria imundice, é apresentado como um selvagem, sendo objeto de espanto, nojo e escárnio da multidão voyeurística. Stan se pergunta como um homem pode se humilhar e perder a dignidade daquela forma. Ele jura que nunca, de forma alguma, essa desgraça poderia acontecer com ele.

Stan é inteligente e ambicioso – e não sem um traço útil de crueldade –, e em breve sobe na hierarquia do circo. No palco, vira assistente no espetáculo de leitura de mentes e adivinhação, e em pouco tempo se "gradua" como um espiritualista.

Aproveitando-se de suas novas habilidades, sai do circo e passa a atender ricos e crédulos em suas belas casas. O mundo parece estar à disposição de Stan. Mas seu caminho cruzará com o de uma perigosa psiquiatra, e nem tudo sairá como planejado: as ambições do jovem Stan cobrarão seu preço.


depois que eu terminei o livro, resolvi pesquisar sobre a vida do autor, e aí tive a certeza de que sim: Stan Carlisle é uma grande parte do próprio William Gresham, e isso não é uma boa coisa. fica visível que esse desprezo pela humanidade não é apenas coisa do personagem, é como se o autor levasse essa mágoa pro pessoal mesmo, com uma dose especial de rancor com o sexo feminino. Stan é cruel, odioso, não tem um farelo de humanidade e se importa unicamente consigo. seu único objetivo é se tornar "o maior" de todos e ganhar dinheiro fácil de ricos sem fazer muito esforço. Stan enxerga os outros como insetos, pois ele possui mais apreço por animais do que humanos. o alcoolismo também possui um peso bem grande tanto para Stan, quanto para Gresham. e o único fator que me faz dar uma aliviada pra esse homem, é o fato de que o livro foi escrito logo após a segunda guerra - ou seja, tava todo mundo fodido da cabeça.


A natureza humana é a mesma em qualquer lugar. Todos têm os mesmos problemas. É possível controlar qualquer um descobrindo-se o que ele teme.


as personagens femininas também são péssimas, quando mencionadas sempre estão acompanhadas com a ideia de que são desleais, egoístas, covardes e que se importam apenas com sexo. primeiro conhecemos Zeena, a cartomante, que traia o marido alcóolatra. depois temos Molly, retratada como uma pessoa fraca e influenciável. e por fim, temos Lilith, a psicóloga frívola que brinca com o intelecto e segredos de seus pacientes. li algumas resenhas em que as pessoas dizem que o livro é "um verdadeiro ensaio sobre a natureza do mal" mas eu não concordo. o mal apenas está lá, ele apenas é. não há motivos, não há causas. Stan não foi vítima das circunstâncias. e a forma em que Gresham aborda a psicologia é bastante contra produtiva. 


o ritmo de leitura é bem arrastado na primeira metade. a ambientação é boa, mas de certa forma desnecessária. muitas vezes eu acabava dormindo no meio da leitura. do meio pro final começa a pegar uma certa velocidade, mas lá nos últimos 5% do livro, as coisas ficam absurdamente corridas - como se o autor quisesse terminar logo a história. não vou negar, eu gostei do final, achei muito interessante acompanhar a quebra de sanidade do Stan, como se fosse uma folha de cristal bem fina, que se rompe com um leve toque de forma repentina. 


Era o beco escuro mais uma vez. Com uma luz em seu fim. Desde criança, Stan tinha aquele sonho. Estava correndo por um beco escuro, com prédios vazios e ameaçadores de ambos os lados. Lá no fim, uma luz ardia; mas havia algo atrás dele, bem atrás, chegando mais perto, até que ele acordava tremendo e nunca alcançava a luz. Eles também têm... um beco do pesadelo. O norte não tem fim. A luz apenas vai para mais longe. E o medo vai chegando mais perto.


é um livro que eu recomendaria pra pessoas que se interessam pela degradação da mente e condição humana, como um estudo de caso mesmo. aqui não há esperança ou uma ideia de um amanhã pleno, apenas um beco escuro, que por mais que você tente fugir, a escuridão sempre vai estar atrás de você, pronto pra te engolir. 

voltando de layout novo...

e aqui estou eu de volta, depois de uma semana sem aparecer e sem cumprir com minhas "obrigações" de beda por uma semana... mas como podem ver, foi por uma boa causa... estamos de roupinha nova! - agradecimentos especiais à Roh - você é um anjo! Ainda estou arrumando uns links (e trabalhando no projeto do curso de ux) mas vou tentar voltar a programação normal amanhã... sem promessas dessa vez.